Ilha de Páscoa: como ir e o que ver

Considerações para quem vai encarar as muitas horas de voo até essa ilhota que fica no meio do caminho entre a Polinésia Francesa e a América do Sul.

1. Uma ilha, três nomes

Os rapanui, nativos de Rapa Nui, são orgulhosos de sua gente, seus costumes e sua história. E não usam o nome Ilha de Páscoa, dado pelos holandeses que lá chegaram no domingo de Páscoa de 1722. Mas esse nome pegou, tanto que quando os espanhóis chegaram em 1770, tentaram sem sucesso  rebatizar para San Carlos. Depois ainda vieram ingleses (Cook em 1774, Thomas Raine em 1821 ), peruanos (que levaram boa parte dos nativos como escravos, por volta de 1862), missionários católicos europeus (que ajudaram a acabar com a escravidão e doenças, mas suprimiram língua e cultura rapanui) e escoceses (a empresa Williamson-Balfour Company explorou a ilha como área de criação de carneiros e extração de lã com apoio do governo chileno até 1953!). Hoje, os nativos e seus descendentes têm direito total sobre os aproximados 163 km2 de sua terra, que chamam de Rapa Nui, a “ilha grande”, o nome usado por navegadores vindos das ilhas polinésias. O nome original era Te Pito ‘o Te Henua, traduzido livremente como “o umbigo do mundo”.

 

2. Os moai

A história passada de geração em geração conta que guerras entre as tribos explodiram quando a civilização rapanui chegou ao limite de sua expansão e esgotou os recursos naturais da ilha. Foi durante essas guerras (que nosso guia Hugo Hito, da Mahinatur, chama de “revolução”), antes da chegada de europeus, que a maior parte dos moai foram derrubados. Essa idéia sustenta a teoria de que as enormes estátuas de rocha eram homenagens aos antigos reis, guerreiros e governantes das tribos, pessoas importantes que continuavam a fazer parte da vida da ilha enviando o mana (energia vital) para seus descendentes.

Ahu Akivi, Rapa Nui, July 2014 / @ Gaía Passarelli

3. Mais moai

Eles estão em todo o lugar, alguns são apenas réplicas, outros são apenas pedaços no meio da grama, poucos foram totalmente restaurados. Gigantes lendários, os moai geram muito mais perguntas do que respostas. Por isso, começar sua visita em Rano Raraku, a “fábrica de moais”, é um bom plano.  A encosta rochosa do vulcão é de onde os moai foram escavados e dezenas deles ainda estão por lá, em diversos estágios – um enorme, nunca retirado da rocha, é o provável último trabalho encomendado aos construtores. Fica dentro do Parque Nacional e portanto você precisa ter o ingresso, que pode ser comprado com desconto na chegada ao aeroporto de Mataveri.

4. A visita guiada

Não posso recomendar o suficiente. Um guia rapanui vai não apenas contar lendas e histórias que aprendeu com sua família, mas responder coisas do tipo “como eles trouxeram essas coisas até aqui”, “por que alguns têm chapéu e outros não”, “do que eram feitos os olhos”, “por que esses estão olhando para o mar”, “mas eram os deuses astronautas” e, claro, “pra que isso serve”. É interessante conhecer as suposições, mas é essencial para entender a vida numa ilha tão retoma. Outra coisa que o guia vai te ensinar é a etiqueta básica do visitante. Mas já adianto o principal: não suba em tudo que parece pedras caídas no meio da grama. Pode ser um ahu.

Hugo Hito, que nos contou uma porção de histórias sobre a ilha.

O guia Hugo Hito, que nos contou uma porção de histórias rapanui.

5. A empanada de atum

Não come peixe? Então mude o destino. Tudo em Rapa Nui é sobre o mar, inclusive a comida. A larica extra-oficial para estrangeiros é uma delícia chamada empanada de atum. Pode ser assada ou frita e está tanto em restaurantes bonitinhos na costa quanto em points de mochileiros como a Tia Berta. Outros peixes como kana kana também podem ser usados mas, hey, essa é uma chance de comer atum fresco! Há mais comida, claro, em especial ceviches e sashimi fresquíssimos. E mesmo se não estiver no cardápio, vale pedir uma sopa marina – caldo de peixe (peça pela sopa feita com o peixe local chamado nanue) com tomates, temperos e frutos do mar. Acompanhado de pão caseiro e da larga oferta de vinho chileno da ilha, é o jeito ideal de encerrar um dia.

6. O transporte

A não ser que você tenha um barco próprio, o único jeito de chegar em Rapa Nui é de avião. A linha é exclusividade da chilena Lan. Há voos diários saindo de Santiago e semanais via Lima. O aeroporto Mataveri é o mais remoto do mundo e serve como escala para quem vai para Pepeete, na Polinésia Francesa, cinco horas de voo adiante na direção da Oceania. Fica há dez minutos de caminhada do centro comercial local, Hanga Roa. Com uma mochila nas costas, totalmente possível sair do aeroporto e ir para seu hotel andando, mas a dificuldade de achar um transporte assim que desembarcar ou deixar combinado com seu hotel antes de embarcar, também é mínima.

A ilha é pequena, as estradas são poucas e bem sinalizadas, há mapas disponíveis no centro de apoio ao visitante e a chance de ser perder é perto de zero. Com um cartão de crédito e uma carteira de habilitação válida, é possível alugar um jipe com tração 4×4 para explorar a ilha. Sem documento e com grana curta, dá pra contar com as vans que circulam pela ilha levando turistas (horários e roteiros no centro de apoio ao visitante, ao lado da quadra de futebol, não se preocupe, é uma ilha pequena, você vai achar). Mas dá pra ser bem mais legal que isso. Com cerca de U$50/dia, dá pra alugar bicicleta e o ideal em Rapa Nui é pedalar. O terreno fácil da ilha é um convite para fazer tudo sobre duas rodas.

Rapa Nui, July 2014 / @ Gaía Passarelli

7. O pôr do sol

Ilha no Pacífico, o sol escorregando por trás dos moai de Ahu Tahai… Dá pra ser bem feliz enquanto turista em Rapa Nui, e nem precisa gastar muito dinheiro: o Hanga Roa Hotel, no sudoeste da ilha, oferece um ‘sunset drink’ gratuito todas as tardes. Aqui não tem moai, mas é o horizonte perfeito para ver o sol descer dentro do mar com um pisco-sour ou chardonnay chileno nas mãos.

8. A praia

Uma das coisas que salva Rapa Nui da super-exploração turística é o fato de não ter grandes praias. É verdade que estamos no meio do Oceano Pacífico, com mar azul turquesa, mas Anakena, no norte, é a única praia com areia branca esquema “estenda uma canga”. Também tem estacionamento (fica longe de Hanga Roa), gente vendendo pequenos moais para turistas e até uma área para churrasco debaixo de coqueiros e sobre grama verde. Não sei no verão, a chamada alta temporada, entre novembro e março. Fomos em julho, que é inverno e o vento sopra com força todo o tempo. Havia gente na praia, mas tudo muito tranquilo. A água é inacreditavelmente transparente e limpa, o mar é calmo, tem barraquinhas vendendo pisco-sour. Aproveite.

9. Os vulcões

A costa rochosa e escura, cujos barrancos escondem cavernas formadas por túneis de lava, não engana: essa é uma ilha formada por erupções vulcânicas. Os três vulcões maiores (inativos há milhares de anos) são bastante visíveis: Tere vaka, Rano Raraku e Rano Kau. O primeiro é o local mais alto da ilha, cujo topo que você alcança em cerca de uma hora de caminhada e de onde se tem uma vista 360º de Rapa Nui. O segundo faz sombra sobre o Ahu Tongariki e é onde fica a “fábrica de moai”. O terceiro é onde está a vila cerimonial de O’rongo, construções de pedra que serviam de abrigo para mulheres e crianças em época de celebrações – os rapanui viviam ao ar-livre a maior parte do tempo. Outra coisa importante sobre Rano Kau: é onde acontecia a competição anual do “homem pássaro”, em que candidatos ao posto de mais importante guerreiro desciam pela costa,  nadavam até o motu (rochedo dentro do mar) para pegar ovos de pássaros e faziam o caminho de volta. Quem completasse o circuito mais rápido (sem quebrar o tal ovo, que ia amarrado na testa!) era o campeão pelo próximo ano, dando ao líder de sua tribo a soberania da ilha por mais um ano.

As pequenas portas podiam ser fechadas com rochas.

As pequenas portas podiam ser fechadas com rochas.

10. O filme

Pois é, tem o filme de 1994. O Hugo, nosso guia, gosta do filme, acredita que é fiel dentro do possível e que foi uma divulgação positiva da história rapanui. Quem somos nós para discordar? A ilha como um todo parece gostar da produção, que é exibida dia sim e outro também em hotéis e bares. É um romance de aventura passado durante o período anterior ao das guerras tribaisi. Mostra as tribos, a cerimônia do homem-pássaro, o conflito dos construtores com a tribo dominante, a falta de comida e madeira e, claro, o moai enquanto delírio coletivo.

~ importante ~

Eu e Chuck acabamos de voltar de uma viagem de uma semana pela ilha, com hospedagem e tours patrocinados pelo Hanga Roa Hotel, o hotel mais antigo de Rapa Nui. Saiba mais sobre eles em http://hangaroa.cl.

Hanga Roa Hotel, Rapa Nui, July 2014 / @ Gaía Passarelli

Teto de grama e paredes de pedra: as suítes do Hanga Roa são inspiradas nas construções antigas da ilha e pensadas para não modificar a paisagem.

 

About gaia passarelli

Freelance writer and traveler, based in Sao Paulo, Brazil.

2 comments

  1. Pingback: [VIDEO] Gato&Gata em Rapa Nui | gaía passarelli

  2. setuju Bener, memang kaya gitu bro :)

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