Kerala: ponto de partida para conhecer a Índia (para o blog ChickenOrPasta)

[publicado em 03/06/2014]

Você já pensou em ir pra Índia?

Dando pinta na frente do Sri Padmanabhaswamy, o enorme (e, dizem, riquíssimo) templo principal de Thiruvananthapuram.

Até janeiro desse ano, nunca tinha pensado. Minha bucket list sempre foi bem ocidental: Canadá, Escócia, Patagônia, Málaga, Évora. Mas a Índia chegou chutando portas, via um convite para viajar ao Kerala, um estado costeiro do extremo sul do país. A ação, um concurso criado pelo Departamento de Turismo do Kerala, visava para divulgar essa fértil, verde e agradabilíssima região do sul da Índia como destino turístico bacana.

A Índia é um país enorme e variado. Pense em como é impossível definir o Brasil pelas montanhas do sudeste, pelas praias da Bahia, pela Floresta Amazônica ou pelo Pantanal. Não dá. E por isso não posso escrever sobre viajar para a Índia quando o que eu conheci é apenas uma pequena parte de um país tão vasto. O que posso dizer com segurança é: voltarei.

A primeira coisa para explicar sobre o Kerala é que o estado não faz parte do imaginário imediato que temos do sub-continente indiano. Não tem as paisagens áridas do Rajastão, os templos ancestrais de Tamil Nadu ou os sadhus de Varanassi. Megalópoles mundialmente conhecidas como Delhi e Mumbai também não ficam no Kerala. Tampouco o pólo tecnológico de Bangalore, os ashrams das montanhas himalaias ou o Taj Mahal.

O que há no Kerala então? Bom, coqueiros!

A vista da piscina do Taj Hotel, em Kovalam.

Arrisco dizer que o Kerala tem mais coqueiros per capta do que qualquer lugar do mundo. E também remansos calmos de águas verdes, montanhas de chá que a cada doze anos são cobertas por flores azuis, antigas cidades  produtoras de ervas aromáticas, resorts de tratamento ayurveda, praias de mar morno, igrejas católicas construídas por europeus e uma comida farta, singular e deliciosa, que não precisa ser vegetariana ou apimentada.

Como venho repetindo desde que voltei ao Brasil, o Kerala é um dos estados mais desenvolvido da Índia em matéria de índices sociais. É o estado com menor taxa de mortalidade infantil, de desemprego e de violência contra a mulher. Também foi a primeira região a atingir 100% de taxa de alfabetização. Isso afasta a idéia de cidades super-populosas e miséria onipresente que as pessoas ligam com a Índia tanto quanto turbantes e encantadores de serpentes.

Outro aspecto torna o Kerala uma região interessante é sua história. Cidades como Kochi, Kollam ou Thiruvananthapuram (carinhosamente chamada de Trivandrum, por motivos óbvios) conhecem estrangeiros há muito, muito tempo. É por onde Marco Polo chegou na Ásia, porta da rota das especiarias, uma região acostumada ao choque cultural e religioso, explorada ao longo da história por portugueses, holandeses e ingleses, onde convivem  hindus, católicos, judeus e muçulmanos.

Apesar ou por causa disso, o Kerala tem clima tranquilo, mais lento do que em outras partes da Índia. Pelo menos foi assim que meus recém-amigos indianos me explicaram a cada comparação que eu tentava fazer com o restante do país. Mas esse cosmopolitismo tranquilo não diminuiu o choque cultural/estético/olfativo que todo ocidental sofre ao pisar na Índia pela primeira vez. O Kerala pode até ser uma experiência de “India for beginners” (como bem definiu meu colega de viagem Oscar Risch, dos blogs MauOscar e Viajoteca) mas ainda é um lugar exótico, misterioso e impressionante para nós, westerners.

Pra começar, a língua é outra: o mayalayam, da qual não consegui aprender uma só palavra. É um dos 21 idiomas diferentes usados no sub-continente indiano e é a língua oficial do Kerala, com seu alfabeto formado por letras redondinhas. Mas não se assuste: em toda a minha viagem encontrei lojistas, garçonetes, guias de templos e recepcionistas de hotéis falando inglês. O Kerala é uma região turística, acostumada a receber e tratar com turistas ocidentais. O que me leva ao próximo item: banheiros.

Além de família real e alfabeto, a cultura Malayalam tem seu próprio calendário.

É possível achar banheiros western style em todo lugar. Ou quase. Restaurantes grandes e hotéis terão banheiros como os que estamos acostumados na América e Europa. Mas quem sair do beaten track vai se deparar com toaletes que são um buraco no chão com suporte para os pés aos lados e um chuveirinho (opa, que sorte!) ou uma torneira com um balde e uma caneca. Junte dois mais dois e vai saber como proceder e, sim, você vai encontrar isso em hotéis de menor categoria. Aprender a se virar com isso faz parte da viagem. Afinal, adaptação é importante quando se viaja. O que me leva ao próximo assunto: roupas.

É importante saber se vestir para a ocasião e a Índia não foge dessa regra. Nenhum dos recentes casos indefensáveis de estupros de turistas na Índia aconteceu no Kerala e eu jamais levantaria a voz para dizer que qualquer um desses acontecimentos lamentáveis pode ser justificado por roupas ou modos das mulheres ocidentais. A violência sexual acontece em todo o mundo, com mulheres de todas as idades, costumes e comportamentos e não é por que “ah, ela estava usando regata num país onde mulheres não mostram os ombros”. Violência é violência e a culpa é de quem a pratica. Ponto.

Quando você fizer a mala para ir para a Índia, precisa considerar o seguinte: assim como você se adapta à comida, ao uso do banheiro diferente, aoIndian head shake e às peculiaridades dos templos hindus, você também vai mostrar respeito ao se adaptar suas roupas aos costumes locais. O povo do Kerala, homens e mulheres, se veste com modéstia e ao fazer o mesmo você mostra que entende onde está. E as roupas de algodão folgadas cobrindo a pele são um bom jeito de lidar com o constante calor e o sol forte.

Eu levei uma mala vazia e comprei uma porção de roupas baratas, lindas, práticas e confortáveis assim que cheguei e a longo do mês entendi que manter os ombros cobertos e comprimento sempre abaixo dos joelhos são suficientes para criar simpatia ou puxar assunto com os indianos. E quero aproveitar aqui para dizer que fui tratada com respeito e gentileza por absolutamente todo mundo, fosse nos resorts, nas lojinhas de temperos nas montanhas de Tekkadhi ou dentro do ônibus de linha Kovallam-Trivandrum City. O que me leva ao próximo assunto: transporte.

Pegar trem na Índia é fantasia de muitos, incluindo leitores do Paul Theroux e fãs do Wes Anderson. Mas é um processo tão complicado que nem vou tentar explicar: HHá sites que já fazem isso com mais conhecimento de causa. Depois do trem, a grande experiência indiana enquanto transporte, claro, é o tuk-tuk, nome carinhoso do auto-rickshaw. É aquele híbrido barulhento de carrinho-motoca com três rodas e um banco para duas pessoas (ou três, ou uma família, ou um carregamento de arroz) atrás, sempre preto e amarelo e às vezes decorado com divindades e fotografias. E tuk-tuks, carros, ônibus e até algumas motos trazem o obrigatório “please honk” pintado na traseira porque a buzina é o item mais importante de qualquer veículo na Índia.

 

 

De todos os lugares que visitei no Kerala durante o KeralaBlogExpress, dois ficaram no meu coração: Munnar e Fort Kochi.

As praias de Kovalam e Varkala são muito bonitas, mas como fã do litoral brasileiro não vejo em sentido atravessar metade do planeta para ir à praia em outro país. Além disso, sou uma pessoa das montanhas. Por isso me apaixonei por Munnar e suas organizadas plantações de chá nas “montanhas azuis” , assim chamadas por causa de uma flor que as cobre a cada doze anos. A pequena cidade é um bom exemplo de vida indiana, com mesquita, igreja católica e templo hindu ao lado de um movimentado mercado onde é possível comprar especiarias, chás, peixe seco, vegetais, quinquilharias chinesas, pós para tingir tecido, roupas ou hot chips, as moedas de banana fritas em óleo de coco, meu novo snack favorito no mundo.

Já Cochi é o principal ponto comercial do estado e a cidade ideal para terminar uma longa viagem pelo sul da Índia. Tudo que você pode pensar em comprar pelo caminho, vai achar igual em seus bazares: tecidos, jóias, temperos, chás, cafés, roupas, estátuas de divindades, pinturas. É formada por várias ilhas e seu centro histórico é Fort Kochi, que guarda a cidade judia de Mattancherry, uma antiga igreja portuguesa, um museu dedicado à herança holandesa e uma praia imunda de onde se vê o pôr-do-sol mais bonito do mundo, batizada em homenagem ao Mahatmma Gandhi.

Gandhi Beach num fim de tarde qualquer.

O melhor jeito de explorar os cafés, grafittis, galerias de arte e personagens de Fort Kochi é de bicicleta, e a maior parte dos hotéis e homestays vai te arrumar uma se você pedir. Também é o ponto ideal para usar como base e fazer pequenas excursões para o ashram da Amma (a santa indiana que abraça as pessoas, sabe?) e outras atrações da região. O que me leva ao próximo, e último, item: os backwaters.

Esses enormes remansos povoados por pássaros e lar de ribeirinhos são a principal e imbatível atração turística do Kerala e lembram de leve nossa Amazônia, com mil tons de verdes, o ritmo lento dos rios. Nenhuma viagem ao Kerala estará completa sem uns dois (ou mais) dias dedicados a contemplar as tranquilas margens à bordo de um houseboat, casas-barco adaptadas das antigas embarcações que levavam o arroz, especiarias e chá do interior do estado para os portos de Kochi, Kumarakam e Kollam, séculos atrás. Hoje, os houseboats tem tripulação (que dorme com você no barco), refeições caseiras, quartos com ar-condicionado e até televisão. Mas quem é que quer ver televisão com um visual desse?

(suspiros)

Para quem está pensando em fazer sua primeira trip pra Índia, o KeralaTourism é o melhor ponto de partida: o site traz informações bastante completas sobre onde ir, como chegar, onde ficar e o que comer.

* Transparência é bom: viajei para o Kerala a convite do Kerala Tourism. Mais das minhas aventuras por lá podem ser lidas no meu blog.

About gaia passarelli

Freelance writer and traveler, based in Sao Paulo, Brazil.

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