David Bowie chega ao Brasil com retrospectiva no MIS e livro [Folha de São Paulo]

[publicado em 15/01/2014]

Os “cartões de estratégias oblíquas” criados por Brian Eno e usados na gravação da trilogia de Berlim estão lá. Filmagens raras da turnê do álbum “Diamond Dogs”, também. E ainda a primeira foto de divulgação, os macacões coloridos, a apresentação de “Starman” na BBC em 1972.

Seria preciso muito espaço para descrever o que se pode ver na exposição “David Bowie”, que o MIS (Museu da Imagem e do Som) paulistano abre ao público no dia 31.

É a maior retrospectiva já dedicada a um artista pop. Organizada pelo londrino Victoria & Albert Museum, a mostra teve acesso aos mais de 75 mil itens do David Bowie Archive, acervo pessoal que reúne fotografias, figurinos, estudos, pinturas e cenários usados ao longo dos 46 anos de carreira.

“O desafio desse tipo de exibição é justamente reunir material, então nesse sentido boa parte do trabalho já estava feito,” conta Victoria Broackes, curadora do V&A ao lado de Geoffrey Marsh.

Mesmo assim, levaram dois anos visitando o arquivo. “Para mim, o mais excitante foi encontrar anotações, pequenos pedaços de papel com rabiscos à mão”, diz Broackes. A dupla de curadores ressalta que Bowie “escolheu não participar de nenhuma etapa da exposição”.

A montagem brasileira, com cerca de 300 itens, não é rigidamente idêntica à original, até por questões de espaço. Algumas peças menores podem não aparecer nos corredores do MIS, mas André Sturm, diretor-executivo do museu (e fã de Bowie) afirma, sem dar detalhes, que há “algumas novidades e uma estará logo na entrada”.

Divulgação
Geoffrey Marsh, curador do V&A
Geoffrey Marsh, curador do V&A

O livro comemorativo da mostra também ganhou versão nacional, uma coedição entre o MIS e a editora Cosac Naify. Com mais de 300 páginas, traz análises e ensaios sobre a influência de Bowie.

Sem dar entrevista há anos, Bowie não perdeu sua capacidade de manipular. “A ideia por trás dele é que você pode ser quem quiser”, diz Marsh. Fascinado pela cultura pop e também um ator e pensador sério, Bowie é “um mestre na manipulação da mídia”, lembra o curador.

Em março de 2013, encerrou uma década de reclusão lançando o álbum “The Next Day”. O disco concorre ao Brit Awards (artista solo e disco do ano) e ao Grammy (apresentação e álbum de rock).

Filmografia de David Bowie ganhará mostra paralela

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Todos os filmes, discotecagem, videoclipes: o MIS terá programação paralela especial para acompanhar a exposição “David Bowie”, entre fevereiro e abril.

“Os programas regulares do MIS terão Bowie como tema. Faremos uma retrospectiva completa com todos os filmes em que ele apareceu”, conta o diretor-executivo do museu, André Sturm, em referência a obras como “Fome de Viver” e “Furyo – Em Nome da Honra”, ambas de 1983. O destaque será o documentário “Five Years”, lançado no ano passado, com entrevistas raras e cenas de arquivo inéditas.

Em fevereiro, a festa Green Sunset ocupará a área aberta da instituição com discotecagem baseada em clássicos do músico. Também haverá festa, aberta ao público, de lançamento do livro “David Bowie”, publicado pela Cosac Naify e coeditado pelo museu.

No fim de março, dentro da programação do Music Video Festival, virá o fotógrafo e diretor inglês Mick Rock, que colou em Bowie na fase Ziggy Stardust e dirigiu os clipes de “John, I’m Only Dancing”, “Jean Genie”, “Space Oddity” e “Life on Mars”.

A programação completa está no site http://www.mis-sp.org.br.

Brasil se identifica com misturas de Bowie, diz curador de exposição

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Geoffrey Marsh, 56, é diretor do departamento de Teatro e Artes Performáticas do Victoria & Albert Museum, em Londres. Ao lado da colega Victoria Broackes, foi o curador responsável pela exposição “David Bowie Is”, em 2013. Ele falou com a Folha de Londres, por telefone.

A retrospectiva, que estreou em 2013 na capital britânica, onde bateu recordes de venda de ingressos antecipados e visitação, chega a São Paulo em 31 de janeiro no Museu da Imagem e do Som.

*

Folha – O quanto você esteve pessoalmente envolvido com a seleção das peças para a mostra?

Geoffrey Marsh – Basicamente, eu e a outra curadora, Vic Broackes, escolhemos todos os objetos. Cerca de 80% a 85% dos objetos são do David Bowie Archive em Nova Iorque, que nós visitamos umas seis ou sete vezes entre 2011 e 2012. Nós vasculhamos esse material, David tem uma arquivista permanente e não teve nenhum envolvimento na escolha do material, todas as escolhas foram nossas. O material restante, cerca de 15% da mostra, veio um pouco da coleção do Victoria & Albert Museum, outras nós compramos, algum material foi emprestado. Mas, essencialmente, é o arquivo dele.

Você tem objetos prediletos, algo que julga essencial para o visitante?

O grupo principal do material são os figurinos. Foi por onde começamos e é uma escolha óbvia, já que é algo pelo que David é conhecido. E são figurinos espetaculares! Mas, do ponto de vista da exposição, há três motivos para começar pelas roupas.

Em primeiro lugar, elas normalmente requerem trabalho de restauração —foram usadas, danificadas, consertadas. Em segundo, nós tínhamos que mandar fazer todos os manequins. David, como você deve saber [a repórter não sabia], tem uma cintura de 60 centímetros, então tivemos que mandar fazer manequins especiais para a exposição. Tudo isso, claro, leva tempo.

Depois as roupas ainda tinham que ser fotografadas em tempo para o livro, cerca de um ano antes da abertura da mostra em Londres. O terceiro motivo é que os figurinos são o que ocupa mais espaço, precisam de área ao redor para funcionarem, precisam de respiro. Então esse grupo acaba sendo crítico em termos do que escolher.

A segunda coisa é que temos esse sistema de som integrado ao ambiente. E filmes.

A terceira coisa são as letras. São letras originais de cerca de 60 ou 70 canções, incluindo clássicos como “Five Years” ou “Life on Mars?”. Nós não queríamos ter material demais, poderia parecer exagerado. Queríamos ter canções suficientes. Eu acho que são muito importantes, porque ninguém as viu antes. É o mais perto que alguém pode chegar da criatividade de David.

Também gosto por causa da caligrafia. Na Inglaterra da década de 1950 [David Bowie nasceu em Londres em 1946], as crianças eram ensinadas a escrever todas com a mesma letra, bem redonda. A letra dele não é exatamente infantil, mas tem algo de caligrafia escolar. Acho que as pessoas ficam fascinadas em ver como alguém escreve à mão.

De volta à sua pergunta, acredito que esse é o tipo de objeto que o público tem que procurar na exposição. Há muitas outras coisas, claro, mas esses grupos, juntos, revelam muito sobre David.

É correto dizer que essa é a maior mostra já exibida sobre um artista musical?

Eu não posso dizer com certeza em temos de música clássica –já houve uma exibição gigantesca sobre Beethoven. Mas até onde eu sei é a maior exibição sobre um artista popular, um cantor e performer. O espaço em São Paulo é um pouco menor do que em Londres, então a mostra encolheu um pouco para caber, mas ainda assim é bastante grande.

O que nós tentamos foi criar a impressão de que apenas a ponta do iceberg está sendo vista, a percepção de que estamos mostrando a ponta do processo criativo. Por isso, por exemplo, há uma parte da exposição com centenas de livros –nós listamos seus livros favoritos.

Creio que o que é importante sobre Bowie é que ele é uma curiosa mistura de fascinação com a cultura pop, de curta duração, entretenimento puro e também um pensador sério. E ele é, obviamente, um mestre na manipulação da mídia. São duas facetas bastante diferentes e quisemos mostrar esses dois lados.

Sabe, alguém pode simplesmente ver um show ou ouvir uma música de Bowie. É divertido e é isso, acaba ali. Mas existe também essa profundidade sobre como ele se enxerga, como ele enxerga a cultura pop, como manipula sua identidade. Isso não é algo fácil de fazer. Ter a confiança para fazer tudo que Bowie fez, indo sempre contra o que está em voga na cultura pop, é jogo duro. Ele é muito determinado.

A mostra foi excepcionalmente popular em Londres mas, mesmo que Bowie seja mundialmente famoso, os brasileiros não têm com ele a mesma relação que os ingleses. Como espera que a mostra seja vista em São Paulo?

Estou muito interessado em como a exposição será vista no Brasil. Espero que seja bastante popular.

Obviamente, o Brasil tem uma história muito interessante nos últimos cinquenta anos. Bowie abandonou a escola em 1963, e teve seu primeiro single em 1964, com 17 ou 18 anos. Há exatamente cinquenta anos! Ele começou bem jovem!

O que é muito interessante é que, por misturar tanta informação, no mundo cultural anglo-saxão –e pelo termo quero dizer Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália– Bowie foi visto como um freak show bizarro, algo muito chocante. Mas, se você olha para o teatro ou dança brasileiros, o Brasil como cultura é muito mais acostumado à ideia de misturar coisas diferentes para ver o resultado. E isso gera resultados muito interessantes. Alguns brasileiros podem olhar para a obra de Bowie e dizer “ah, e daí, isso é o que nós fazemos”.

Então eu estou interessado em ver como será a recepção. Pense nos grandes artistas pop da cultura anglo-saxã –pense em Beatles, Stones, Who, Springsteen– eles não estudaram teatro, não têm esse tipo de envolvimento. Alguém como Lady Gaga vai lá e coloca umas roupas engraçadas, mas não estudou teatro como uma forma de approach completo. E é isso que Bowie fez e é por isso que ele é como ele é. Ele é tão ator quanto músico.

Há ainda a questão do Bowie atual. Ele tem essa longevidade extraordinária, 67 anos e ainda produzindo. A maior parte dos seus colegas seguem eternamente apoiados em hits do passado ou se perderam de alguma forma. Eu acho que essa longevidade está diretamente relacionada a quem Bowie é como ator. Ele ama manipular a mídia, ele ama o fato de que pode lançar um disco sem ninguém saber. Ele personifica a ideia de que você pode ser quem você quiser e isso tem a ver com sua confiança.

About gaia passarelli

Freelance writer and traveler, based in Sao Paulo, Brazil.

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  1. Pingback: David Bowie não é David Jones – Gustavo Koch

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