Entrevista: Many Ameri para MTV1

[original aqui]

MANY AMERI, DA RED BULL MUSIC ACADEMY: “A ACADEMIA SEMPRE FOI VISTA COM CINISMO PELA IMPRENSA MUSICAL”

Postado Gaia Passarelli // Entrevistared bull music academyrbma

Many Ameri, co-fundador da Red Bull Music Academy, discute as origens do evento, um mês de workshops e palestras com notáveis da indústria musical que acontece a cada ano em uma capital do mundo. 2013 viu a RBMA ocupar a cidade de Nova York durante o mês de maio.

Acostumado com uma certa dose de incredulidade por parte da imprensa, o entusiasmado Many pacientemente esclarece propósitos e origens de sua iniciativa, que em 2013 completou 15 anos de vida, nominalmente ligada à marca de bebida energética. Ao lado dos sócios Trosten Schmidt e Christopher Romberg, Ameri comanda a RBMA através de uma companhia multimídia chamada Yadastar, desde 1997.

A Academia cresceu de evento para DJs para simpósio de criação musical ao longo de sua trajetória, que incluiu edições em São Paulo, Cidade do Cabo, Barcelona e Londres. E teve alguns percalços para atravessar também, como a quase cancelada edição em Tóquio, mudada às pressas para Madrid após o terremoto do Japão, e a edição cancelada no meio por causa dos ataques de 11 de Setembro em Nova York. Na entrevista abaixo, Many conta que a essência do evento é exatamente a mesma de quando foi criada, lembra momentos importantes e explica qual o legado que a academia deixa para as cidades onde acontece.

Gaía Passarelli: Como a idéia da Music Academy aconteceu?

Many Ameri: Nós fomos convidados pela Red Bull, que basicamente disse: “nós estamos no mundo dos esportes há algum tempo, ajudamos algumas cenas a acontecer e agora queremos fazer o mesmo com a música”. Tudo o que nos foi dito é que a marca estava comprometida com apostar em um projeto de longa duração e que eles queriam algo substancial. Então, em Berlim, nós [Many e seu sócio Torsten Schmidt] criamos essa idéia de uma academia de música. Os jornalistas musicais sempre foram muito críticos sobre uma marca se envolver com o círculo deles, e sabíamos que o projeto tinha que ser forte o suficiente para convencer as pessoas, para ficar. A Academia sempre foi vista com muito cinismo pela imprensa musical. Agora, o que nós estamos fazendo aqui em Nova York é exatamente a mesma coisa que fizemos em Berlim em 1998. É maior se você olhar tudo que acontece em volta, mas na essência ainda são dois grupos de trinta pessoas, cerca de quarenta palestrantes, oito estúdios de criação. A receita sempre foi juntar pessoas de backgrounds diferentes, expostas a um monte de estilos musicais, inspiradas pelo que elas criam juntas, pela música do passado e do futuro, por pessoas que mudaram a musica dos últimos 40 anos. A mudança é que antes era um grupo de austríacos e alemães num galpão em Berlim e agora nós temos pretendentes de 90 países e dois grupos representando mais de trinta países. Todos os projetos em torno da academia cresceram e o perfil dos artistas e o que é requerido deles é uma progressão lógica do quanto a tecnologia mudou.

O que você fazia antes da RBMA?

Eu trabalhava em uma agência de comunicação, tentando criar laços entre arte e marcas, com clientes como Adidas e Levis. Isso foi em meados dos anos 1990, na Alemanha. Eu era bastante jovem e bem-sucedido e a agência em que eu trabalhava era bem ousada. Eu era um tipo de cartão de visitas deles. Quando a Red Bull nos procurou eu saí do meu emprego e me dedico à Academia desde então.

Há alguns anos a academia começou a deixar algo em cada cidade onde acontece. Por quê?

Bom, essa idéia existe desde o começo, mas nem sempre nós fomos bem sucedidos, principalmente nos primeiros anos. Se você pensar em toda a infraestrutura criada pela Academia, faz sentido que ela possa ser usada depois. Nós sempre tivemos a intenção de melhorar as condições do espaço que ocupamos. Por exemplo: em Dublin, em 2000, nós usamos uma antiga prisão feminina que estava sendo transformada em uma escola. Fizemos a Academia lá e as mudanças que realizamos foram pensadas levando em consideração a estrutura da escola, que ocuparia o espaço depois de nós. O próximo passo, depois disso, foi trabalhar com instituições culturais. Em Roma, em 2004, nós trabalhamos com grupos de ocupação em um espaço que foi um monastério no século XVI que estava abandonado. Nós queríamos criar os espaços para workshops e os estúdios.

A gente tenta fazer isso sempre, mas em alguns países não funciona. Nós transformamos e entregamos o espaço e depois de um ano alguém fica sem dinheiro ou as pessoas começam a brigar entre elas. Tínhamos zero controle sobre o que acontece depois, mas desde 2007 estamos tentando criar condições para que exista algum controle. Em 2007, em Toronto, nós desenhamos a Academia e ela se tornou a sede da Red Bull no Canadá. Em 2010 a academia se tornou um estúdio da Red Bull em Londres e em 2011 a cidade de Madrid tornou o espaço um centro cultural dedicado à música. E estamos fazendo o mesmo agora em Nova York [NR: o espaço da Red Bull Music Academy 2013, em Nova York, vai se tornar a nova sede da Red Bull na cidade, mantendo os estúdios abertos para parceiros e criativos que precisarem deles]. Eu acho que o conceito de tentar manter algo sempre existiu e daí se há a possibilidade de fazer isso pela Red Bull, então temos mais controle e garantimos uma sobre-vida.

É correto dizer que a Academia começou como um projeto de musica eletrônica?

Sim, é correto. Viemos de uma cena relacionada aos clubs e quando começamos estávamos lidando com um monte de DJs, que tocavam hip hop, reggae, techno. Esse perfil mudou com o tempo, indo na direção de produtores musicais. Hoje algumas pessoas chegam com um treinamento musical bastante clássico, alguns são multiinstrumentistas, alguns são vocalistas fantásticos, outros são compositores. Há uma variedade muito grande de pessoas e eu acho que isso é reflexo da nossa conversão de um encontro de tocar musica para um encontro de criar musica.

Em 2001 a Academia foi interrompida pelos ataques de 11 de setembro. Como vocês lidaram com a situação? Eu havia deixado Nova York dois dias antes. Mas Torsten, meu sócio, ainda estava lá. Como todo mundo, eu recebi a notícia enquanto ela estava acontecendo. Como você pode imaginar, recebemos ligações de parentes preocupados, pessoas ligadas aos participantes que estavam em Nova York. Nosso negócio foi tentar entender o que estava acontecendo, se o mundo estava ou não acabando.

E a academia voltou à Nova York doze anos depois disso. Me parece que vocês estão celebrando bastante a cultura da cidade. Por quê?

Nova York é uma cidade muito especial. E se provou uma cidade muito especial para nós também, no sentido de que conseguimos estar no controle. Não há nenhuma outra cidade no planeta onde estejam tantos palestrantes e participantes de edições anteriores, onde estamos conectados com tantas pessoas e cenas musicais. É um lugar diferente e que aceitou o tipo de programação que queríamos fazer, que foi uma homenagem à música daqui. Isso aconteceu por causa das conexões e relações que temos com instituições musicais estabelecidas na cidade: clubs, selos, promoters, artistas. De certa forma eles estavam nos homenageando de volta. Então ficou uma situação meio ‘nós amamos Nova York e Nova York nos ama’. Foi muito bom ver que podíamos programar um mês de eventos que significam algo em cenários muito específicos, que tudo que nós pensássemos em fazer teria público interessado em experimentar.

E agora que vocês vão embora, o que fica e como a cidade poderá usar o legado?

Ficam nossos estúdios. É o oitavo estúdio que construímos pelo mundo. Você tem que imaginar que nós temos cerca de mil e quinhentas pessoas que já participaram da academia como palestrantes e alunos, imagine o tipo de colaborações que eles podem realizar. Nós queremos que esses estúdios sejam um lugar para colaboração. Não é o tipo de estrutura que você aluga por dia e é gratuito, claro. Nós estamos interessados em projetos que possam ser desenvolvidos com essa estrutura, encontros de diferentes musicas, músicos estejam interessados em estar em um espaço que permita experimentação.

E, claro, vocês já estão planejando as academias de 2014 e 2015…

Sim, mas eu não gosto de falar sobre isso. Nós tivemos tantos locais onde a Academia deveria acontecer e não aconteceu, sabe? Nós queríamos ir para Nova Orleans e então houve o furação Katrina. Nós queríamos ir à Toquio e aconteceu o terremoto do Japão. Pelo bem da própria cidade (risos) eu não falo sobre o que vai acontecer em seguida. Nós estamos trabalhando nisso, claro, pode ter certeza que essas edições vão acontecer. Mas é importante encerrar essa antes.

Algum participante chamou sua atenção nessa edição?

Sim, alguns. Na verdade, há alguns participantes nessa edição que são bastante impressionantes. Alguns já são bem-sucedidos, como o Evian Christ. Vários que vale a pena escutar. Você foi no evento do Pantha du Prince? Você ouviu o Louis Baker? Ele, por exemplo, é muito impressionante.

About gaia passarelli

Freelance writer and traveler, based in Sao Paulo, Brazil.

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  1. Pingback: Red Bull Music Academy 2014 | Gaía Passarelli

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