Daft Punk para Revista Galileu

Qual a importância do Daft Punk na cultura pop? Leia íntegra aqui.
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Humanos, afinal

Novo álbum do Daft Punk reafirma a importância da dupla francesa no cenário pop do século 21
por Gaía Passarelli

 

Editora Globo

SEM SAMPLER: Bangalter e Homem-Christo inverteram o processo e gravaram um disco com músicos tocando em todas as faixas

“Give life back to music…”, canta um robô na canção que abre Random Access Memories, quarto álbum do Daft Punk, lançado no fim de maio, e o primeiro conjunto de novas canções lançado pela dupla francesa em sete anos. A faixa resume a intenção do Daft Punk em sua volta: colocar vida de volta na música para dançar. O duo formado por Guy Manoel de Homem-Christo e Thomas Bangalter vem explorando os limites entre gêneros como house music, electro e rock de arena para pista de dança e apresentando-os a multidões desde o lançamento de Homework, seu primeiro disco, de 1997. Mais do que expandir gêneros, o Daft Punk explora as fronteiras dos formatos, misturando show, disco, filme, videoclipe e recursos digitais a cada novo trabalho.

“O álbum é fantástico, muito corajoso”, analisa o diretor do festival catalão Sónar, Enric Palau, que deu ao Daft Punk seu primeiro show importante, encerrando a edição de 1997. “O Daft Punk provavelmente é a banda mais cool do mundo. E, sem dúvida, é a mais inteligente”, crava.

Essa inteligência reside no completo controle da própria imagem e criação, algo que é cada vez mais difícil de exercer. “O segredo do Daft Punk é saber dizer ‘não’”, conta Pedro Winter, que cuidou da carreira dos dois entre 1996 e 2008.

É um “não” que faz muita diferença em 2013: o fato do disco não ter vazado a dias de seu lançamento é uma das consequências. Jornalistas em todo o mundo foram convidados para ouvir o disco em salas fechadas, com fones. A experiência da audição controlada, com direito à assinatura de termo de sigilo, remete à época em que discos eram gravados em estúdios milionários ao redor do mundo e gravadoras não poupavam esforços em sua divulgação. E é essa época, meados dos anos 70, dos discos conceituais milionários, que o Daft Punk quer recuperar em 2013.

   Divulgação

QUATRO MOMENTOS: O ciclo aberto em Homework (à esq.) seguiu estritamente eletrônico por dois discos, até o atual (à dir.)

O lançamento de Random Access Memories é o ápice de uma estratégia cuidadosa que começou em 2012, com boatos soltos na internet por alguns dos colaboradores do novo disco, como o guitarrista e produtor Nile Rodgers (que já trabalhou com David Bowie, Madonna e Diana Ross) e o mago da disco music Giorgio Moroder (que popularizou o sintetizador), entre outros.

No começo de março surgiu um teaser com apenas 15 segundos de uma música inédita. No meio do mês seguinte, um trecho maior (um minuto) da mesma música foi apresentado no telão do festival de música norte-americano Coachella e em um comercial do programa de humor Saturday Night Live — era o suficiente para atiçar produtores amadores e profissionais. Em poucos dias, a rede era invadida por remixes e edits que colavam os trechos divulgados de diferentes formas. Logo depois, surgia a versão oficial do primeiro single, “Get Lucky”.

O escritor Bill Brewster, autor de Last Night a DJ Saved My Life, livro essencial sobre a história da discotecagem, vê na participação de Moroder e Rodgers motivo para o sucesso prévio do álbum. “É como se o Daft Punk estivesse finalmente saindo do armário em relação a suas influências dos anos 70, trabalhando com os maiores produtores de disco music da história.”

Embora tenha começado como uma banda de rock, o Daft Punk sempre foi influenciado pela cultura das raves e DJs dos anos 1980 e 90. A dupla vem prestando homenagem aos seus heróis desde o primeiro disco. “Na época, só bandas de rock eram notícia. As das de música eletrônica que faziam sucesso conversavam com o rock, como os Chemical Brothers. O Daft Punk quebrou a barreira entre elas”, lembra Brewster.

No primeiro disco a dupla ainda produziu a brilhante “Teachers”, em que os dois escancaram suas influências ao citar uma longa lista de produtores e DJs do underground da dance music como DJ Pierre, Roy Davies e Jeff Mills. E foi desta dance music underground que veio a esperta opção de esconder o rosto, desde a primeira turnê. O que começou como máscaras de bicho se transformou em personagens no anime Interstella 5555 e então nos reluzentes capacetes, que já têm cinco versões diferentes, produzidas por um estúdio de efeitos especiais.

A ideia da celebridade sem rosto, do criador-máquina que o Daft Punk tomou de artistas como Underground Resistance, influenciou quem veio depois, da banda de desenho animado Gorillaz à dupla belga 2ManyDJs (que usava sacos de supermercado na cabeça), até chegar ao topo da música comercial, quando o produtor Deadmau5 faz fortunas usando uma cabeça de rato gigante. Mas os capacetes do Daft Punk vão além. “Eles foram muito espertos ao esconder suas personalidades atrás das máscaras. A atenção das pessoas fica nos personagens e na música”, completa Enric Palau.

A dupla não desapareceu nos sete anos que se passaram entre Human After All e Random Access Memories. Nesse período eles lançaram o filme Electroma e a trilha-sonora do blockbuster da Disney, Tron: Legacy. E continuaram presentes como referência máxima da musica eletrônica de arena que domina a cultura jovem norte-americana dos últimos anos.

“Eu diria que o Daft Punk é muito mais importante fora do que dentro da dance music”, pondera o jornalista norte-americano Philip Sherburne, que acompanha a dupla desde o início. “Eles são embaixadores da cultura dance. O show no Coachella em 2006 é citado como o começo da recente explosão da eletrônica nos EUA, porque ali eles alcançaram novo público e ajudaram a fundamentar o que outras bandas, como o Justice, fariam a partir de então.”

Em Homework eles anunciavam que música eletrônica era cool, em Discovery eles fizeram o mesmo com o rock e em Human After All se perguntavam para onde ir. A resposta é ir em direção à alma da música e está no recém-lançado Random Access Memories. O Daft Punk quer mostrar que a dance music pode ser divertida, dançante sem precisar ser feita por computadores. Não é pouco e nem é fácil. Mas se alguém pode conseguir, são eles.


 

TEMPO-ROBÔ

Como a dupla se tornou uma das maiores referências em música eletrônica

1987 > O português Guy-Manoel de Homem-Christo e o francês Thomas Bangalter se conhecem durante o ensino secundário em Paris.

1992 > Com Laurent Brancowitz (hoje no Phoenix) formam o Darlin’. O trio recebe uma crítica negativa no jornal Melody Maker, que chama o show do grupo de “daft punky trash”. Brancowitz sai e Guy e Thomas seguem como uma dupla.

1995 > A dupla lança o primeiro single, The New Wave, em 1994, mas só começa a chamar a atenção a partir do segundo, Da Funk, que vende 30 mil cópias. Passam a não mostrar os rostos e usar máscaras em fotos de divulgação.

1997 > O primeiro álbum, Homework, sai em janeiro e se torna um dos mais importantes da década de 1990. Já nesta época, passam a dar atenção aos clipes, dirigidos por diretores cult como Spike Jonze, Michel Gondry e Roman Coppola.

2001 > Substituem as máscaras por capacetes brilhantes, criados pela empresa de iluminação LEDFX. Os capacetes mudam a cada tour. Lançam o segundo álbum, Discovery, e, no mesmo ano, um disco ao vivo, Alive 1997.

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2003 > Junto do artista de animação japonês Leiji Matsumoto lançam vídeoclipes para cada faixa de Discovery. Juntos, os vídeos formam o anime Interstella 5555. Lançam o site Daft Club e a compilação de remixes com o mesmo nome.

2005 > Lançam o terceiro álbum, Human After All. O disco ganha uma versão de remixes no ano seguinte e é a principal atração do festival californiano Coachella. Passam pelo Brasil com esta turnê. Em 2006 também lançam o filme Electroma em Cannes.

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2007 > No fim do ano lançam o segundo álbum ao vivo, Alive 2007, gravado durante o tour de Human After All. Em 2009, a dupla se apresenta no palco do Grammy com Kanye West e ganha dois prêmios na categoria música eletrônica.

2010 > Assinam a trilha-sonora de Tron: Legacy, sequência do filme de ficção científica cult dos anos 80.

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2013 > Em abril, depois de uma sequência de teasers, é lançada “Get Lucky”, com vocais de Pharrel. Random Access Memory é lançado com agressiva estratégia de marketing e cercado de segredos, no final de maio.

About gaia passarelli

Freelance writer and traveler, based in Sao Paulo, Brazil.

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