O último bar de marinheiros de Liverpool

(mais sobre Liverpool aqui)

A primeira coisa que pensei ao descer do trem em Liverpool foi “imagina no inverno”. Era fim de outono, meio da tarde, e um vento frio com garoa piorava as coisas. No táxi que peguei pro hotel, superando  meus problemas com o sotaque do norte da Inglaterra, o taxista comenta: “Oh, Brazil? Lovely weather, isn’t it?” Pode crer, bem diferente daqui.

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A conversa passou pra Beatles (“C’mon, that band ended 40 years ago!”) e comércio marítimo. Mas enquanto passávamos pela beira do rio Mersey, que parece um mar e desemboca nele alguns quilômetros ao norte, com a Ilha de Man no caminho até a Irlanda, a questão do frio continuou na minha cabeça.

Essa é uma característica do frio: ele não se faz esquecer como o calor durante um banho fresco. Frio é frio, fica com você. A comida tem que compensar as calorias que seu corpo perde pra te manter aquecido e por isso as refeições são pesadas, gordurosas, temperadas. Veio na minha cabeça uma tigela fumegante de carne cozida, pra comer com nacos de pão, bebendo cerveja.

Durante a noite quis caminhar sozinha e achar algo pra comer: passei por um lotado Cavern Club/Cavern Pub (você sabe a história: foi onde os Beatles fizeram os primeiros shows) onde um senhor gordinho cantava um cover do Oasis para uma platéia de senhores gordinhos; pela estátua de bronze do John Lennon; por grupos de adolescentes bêbados.

Também tentei ir no pub mais antigo da região (o pub mais antigo do Reino Unido, segundo a wikipedia, se chama Ye Old Trip to Jerusalem, foi aberto em 1189 fica em Nottingham), mas não tinha comida e um grupo pouco simpático de senhores de idade me mandou olhares enviesados quando fiz menção de sentar no balcão.

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Acabei comendo num caça-turista qualquer e voltei para o hotel temático dos Beatles onde estava hospedada, para conversar com a enorme foto do Ringo Starr pendurada na parede.

Na tarde seguinte recebi mensagem de amigos de amigos (logo: amigos) que moram na cidade. Um musico inglês e uma artista plástica brasileira. Os dois, estavam recebendo a mãe da moça e me convidaram para sair. Os encontrei na frente do hotel, no centro da cidade.

“Onde você quer ir?”
“Onde é legal e não custa muito caro.”
“Ah, tem um restaurante espanhol de tapas aqui perto, podemos ir andando, ótimos vinhos. Que você acha?”

Quando eu estou numa cidade nova a chance é que quero comer o que a cidade tem de melhor e mais típico. Não quero comer em restaurante espanhol no norte da Inglaterra. Quero comer o que as pessoas da cidade comem depois de um dia de trabalho, jogando papo fora com os amigos.

Percebendo a hesitação, meu novo amigo inglês socorreu.

“Tem um bar de marinheiro aqui perto também. Lá  tem vinho e cervejas caseiras.”
“Tem lareira?”
“Acho que sim.”
“Parece ótimo, vamos.”

Liverpool é um importante centro de comércio marítimo do Império Britânico. E o The Baltic Fleet é o último sailor pub, bar de marinheiros, da cidade. Dizem que há túneis e passagens secretas no subsolo, saindo do banheiro masculino em direção ao cais e à antiga zona de puteiros da cidade. Os túneis, parece, há décadas foram fechados com paredes de tijolos. Serviam como passagem para contrabandistas de produtos, prostitutas e demais fujões. Não fui ver porque parece que eles saem do banheiro masculino.

Sou o tipo de pessoa que fica muito deslumbrada com a antiguidade das coisas. O Baltic  foi aberto com esse nome e a mesma configuração de local em 1812, mas no século 17 já havia ali um pub, menor. Ou seja: está servindo comida e álcool pra gente com fome e vontade de se embriagar faz um bom tempo. Deve ter algo de certo.

É um pub clássico, rústico, espaçoso (no dia estava um pouco vazio, já que era segunda-feira) e quentinho, bom pra jogar conversa fora e encher a cara. Ocupa uma casa de pé direito alto, bonito e arejado, com paredes coloridas de azul. O prédio tem muitas janelas, lousas onde está escrito o melhor do dia e decoração com tema náutico. Lareiras e mesas e bancos de madeira estão espalhados em diversas salas menores.

Como em qualquer pub inglês, você escolhe onde sentar e depois vai até o balcão fazer e pagar seu pedido – a bebida você pega na hora, a comida é levada na mesa. Não há wifi, televisão ou maitre organizando uma fila de espera.

A seleção de cervejas especiais, caseiras e de pequena produção é o forte da casa. O site Bar Essentials fala sobre isso em detalhes. Há tortas e roasts. Mas eu pedi o scouse, cozido substancioso do norte da Inglaterra, feito diariamente e servido até altas horas. Pra acompanhar, um pint de cidra (Malvern Magic, ácida e um pouco aguada). Me sentei com os amigos numa larga mesa de madeira na frente de uma das lareiras.

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(Ignore a manteiga em tabletinho, ninguém é perfeito)

Não podia ser melhor: o cozido, feito de cubos de carne bovina com cenoura, cogumelos, cebola e batatas, tinha um caldo castanho grosso e saboroso, com aroma de ervas como sálvia. Acompanhado de pão, caiu perfeito com a cidra, que é de um pequeno produtor da região. Meus novos conhecidos tomaram vinho e cerveja e em meia horinha estávamos batendo papo como se fossemos amigos desde a infância, não importando o inglês arranhado da mãe da minha amiga ou o português inseguro do seu genro.

Voltei pro meu hotel com a barriga e o coração quentes pra mais uma seção de terapia com meu BFF Ringo Starr. Na certeza de que quando voltar à Liverpool o Baltic e seu scouse ainda estarão por lá.

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The Baltic Fleet
33A Wapping
Liverpool, Merseyside L1 8DQ, United Kingdom
0151 709 3116

About gaia passarelli

Freelance writer and traveler, based in Sao Paulo, Brazil.

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