Dupla guarda tesouros da MPB na zona norte paulistana

Uma lenda conta de uma casa no Tremembé onde dois senhores guardam uma extensa coleção de discos de vinil raros da música brasileira, que só vendem com hora marcada, para colecionadores e lojistas.

Tem um pouco de exagero nessa história. Mas Zico e Chico existem mesmo. São dois senhores vestindo bermudas, camiseta e aparência comum. Estivessem ao seu lado no ônibus, você jamais imaginaria que eles ocupam uma casa no bairro do Jacanã (que não é o Tremembé, mas é perto) com cerca de 50.000 discos de vinil.

Fui de carro, guiada por uma amiga que, interessada em carimbó e disco music, comprou disco com eles pela internet. Mas o caminho normalmente envolve ir até uma estação do metrô, telefonar e então aguardar o carro de Chico, que sai dirigindo pelas ruas confusas do bairro até chegar na casa simples, numa ladeira da zona norte de São Paulo.

Após uma pequena escada, paredes sem reboco, um tanque de lavar roupa, um portãozinho de metal que range, dois cachorros vira-lata e outra escada, chega-se num corredor com pequenos quartos. É lá, numa arrumação que só quem vive ali dentro entende, que está a tal coleção.  O volume impressiona. “Tenho bastante, mas tem gente que tem muito mais,” desconversa Zico.

Um visitante sem foco corre o risco de olhar para aquelas pilhas e prateleiras de discos e ver apenas… discos. Mas ali existe bem mais que isso: o acervo da dupla documenta a história da música brasileira com variedade singular.

Numa sala estão forró e sertanejo, outra dá espaço para ‘independentes’, discoteca e cantoras. Três quartos no andar de cima estão lotados de funk, soul, ‘afro’, psicodelia e progressivo. Na melhor tradição das lojas de discos, Zico e Chico prometem: “você me fala o que quer que a gente acha.” E é verdade, eles acham mesmo, inclusive as coisas que você quer e não sabe.

Variedade, bagunça, simpatia e descobertas são essenciais na experiência que é comprar discos do Zico e do Chico. Numa rápida passada de olho, achei um disco dos anos 1970 gravado ao vivo por Rita Lee e Gilberto Gil, um disco antigo do Trio de Ouro com autógrafo de Herivelto Martins, toda a série Racional do Tim Maia mais as discografias provavelmente completas da Gal Costa, Elis Regina e Nara Leão. Uma pilha com o primeiro disco do Caetano Veloso fora do plástico chama a atenção, mas um bilhete escrito ‘não mexa’ já dá a dica: esse faz parte do grupo que eles estão restaurando. Uma parede guarda discos de jazz bossa-nova originais, em impecável estado de conservação.

O jeito de puxar assunto e poder aproveitar o vasto conhecimento musical da dupla, que espera que seus clientes estejam dispostos a conversar a fundo sobre as descobertas feitas no acervo, é chegar sabendo o que quer. E se deixar ouvir a música que sai da agulha na vitrola, se impressionar com os achados que eles trazem de outras salas ou tiram de dentro de caixas.

De onde vêm tudo isso? Zico, que está sozinho no dia da entrevista, não conta. “Ah, eu viajo o Brasil inteiro, trago do norte do país, tenho representantes. Quase todo dia liga gente pra vender discos. Falta dinheiro às vezes pra comprar, mas disco não falta. Ainda tem muito disco por aí. Hoje mesmo o Chico saiu pra ver uma coleção. A informação é que é importante, saber como chegar nesses discos.”

Isso, Zico e Chico sabem. O know how da dupla, um funcionário da Eletropaulo e um sonoplasta de rádio, vem das feiras de trocas do centro de São Paulo, que frequentavam nos anos 1990. Em especial a da Praça Alfredo Issa, que rolava diariamente antes de ser fechada pela Prefeitura, e ‘tinha de tudo”.

“Nós nos conhecemos na feirinha há uns dezessete anos. A maioria do pessoal do meio do disco que conheço hoje, conheci nessa feira. Comecei comprando uns discos pra mim, tipo Fagner, Marinês… Vi que existia uma procura muito grande. Isso já naquela época, imagina hoje!”

O tempo e dedicação ao assunto dão para a dupla uma influência que ela não sabe que tem. São tímidos para indicar clientes, mas uma revista num canto mostra um vendedor de música brasileira em Nova Iorque que refaz seu estoque duas vezes por ano com visitas à casa do Jacanã. Não é o único. O produtor musical norte-americano Diplo, espécie de bandeirante sonoro que vasculha e relança nos EUA e Europa sons das periferias de cidades como Rio de Janeiro e Kingston, também passa por lá.

O DJ Gorky, colecionador de vinil e integrante da banda curitibana de crossover bass-funk-brega Bonde do Rolê, é outro influenciado por Zico e Chico.

“Conheci o Zico e o Chico como a maioria das pessoas: por indicação dos amigos. Falavam dos dois com um ar de mistério, como se fosse um lugar encantado onde eles têm qualquer disco que você possa querer. O especial são as coisas que eles acabam mostrando pra você. Mas tem que tirar o dia todo pra poder conhecer tudo! Hoje desisti, porque deixava minhas calças a cada compra, mas não me arrependo de nenhuma vez que fui lá. Com eles conheci discos como o do Burnier & Cartier, Jaime e Nair, todos esquecidos pelo grande publico, mas que pra mim tem aquele sentimento de ‘meu disco favorito que ninguém conhece’”.

Acostumado a colecionadores e compradores sérios, Zico não esconde a decepção quando, na minha primeira visita, ignoro um disco do Trio Esperança e não mostro intenção de comprar o primeiro álbum do Milton Nascimento. Pouco adepta da MPB que sou, me distraio com um achado ou outro de rock gringo.

Mas mesmo para uma neófita no assunto há esperança. Comento que meu namorado gosta da Rita Lee e Chico aparece com Babilônia, último disco da fase Tutti Frutti, com sucessos como Miss Brasil 2000, com capa meio new wave. É um exemplo interessante do rock paulistano setentista, mistura de funk, glam e MPB, que Rita deixou pra trás. Também garimpo um detonado primeiro disco do Racionais MCs e um Perola Negra do Luiz Melodia.

O que ‘sai mais’, principalmente para compradores internacionais, via email e telefone, é samba-rock, tropicalismo e psicodelia. “Hoje considero samba-rock o carro chefe do mercado brasileiro de vinil. E o forró virou ouro. Quem tem forró tem, quem não tem não vai ter mais.”

A maior parte do acervo é acessível, com preços entre $30 e $100. Mas não é regra e sei que há discos que no mercado especializado valendo mil, dois mil reais. Não é difícil imaginar que discos como o Acabou Chorare dos Novos Baianos (com capa e encarte original) ou o disco-manifesto tropicalista Panis et Circensis não saem barato. Principalmente quando expostos como troféus para audiófilos em feiras de vinil paulistanas. “Feira vende bem. Se o cara me desse mais mesas, vendia 20% do faturamento de toda a feira.” reclama Zico, que promete a abertura de uma sonhada loja no centro de São Paulo.

“Tô procurando um ponto. Preciso de um espaço grande pra levar pelo menos uns dez, quinze mil discos de uma vez. Levar mil, dois mil discos não compensa, depois o cliente quer alguma coisa que está aqui e não está lá e não dá pra ficar vindo aqui o tempo todo buscar.”

Saio da visita ao Jaçanã sabendo que há guardado ali uma única edição do raríssimo álbum de psicodelia brasileira Bango, de 1971 – sem preço. São essas coisas que animam Zico. “Posso indicar pra você discos desconhecidos, é melhor que mostrar disco conhecido, né?”.

Uma semana depois, numa feira de vinil numa pizzaria no bairro da Pompéia, encontro Chico. Decepção: ele não se impressiona com meu pedido pelo Young Americans original, do Bowie, nem quando comento que minha coleção de discos dos anos 70 do Bowie é formada só por originais, importados.

No fim, acabei levando aquele Milton Nascimento. Belo disco.

Zico e Chico

About gaia passarelli

Freelance writer and traveler, based in Sao Paulo, Brazil.

2 comments

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: