Madonna para MTV1

(original aqui)

O DNA CRIATIVO DE MADONNA

Postado Gaia Passarelli // showturnêmadonnamdna

Em 1994 a dupla inglesa Everything But the Girl emplacou o hit ‘Missing‘ nas paradas. Era um tipo de música sexy, elegante, adulta, na tradição do r’n’b cool de, por exemplo, Lisa Stanfield. No mesmo ano, Madonna, com a voz melhor do que nunca e usando um inacreditável delineador preto, lançou seu sexto álbum, ‘Bedtime Stories’. Além do clima urbano-chique do EBTG, ‘Bedtime Stories’ emulava o que estava sendo feito no r’n’b norte-americano, com produção de Baby Face e inspiração em Aaliyah e Mary J Blige.

Madonna tinha acabado de sair da sua fase mais agressiva. Bedtime Stories veio logo após o livro Sex, do álbum Erotica, do alter ego Dita. Disposta a suavizar a imagem, ela investiu em canções mais lentas, com letras confessionais e inspiração eletrônica. De quebra, adiantou a cara que a música pop teria na próxima década.

A faixa-título tem as credenciais certas: foi composta por Björk em parceria com o produtor Neele Hooper que, além dos discos da cantora islandesa, havia trabalhado com o Soul II Soul e assinado o clássico Blue Lines do Massive Attack. “Bedtime Story” adianta a Madonna de “Ray of Light”, ‘Nothing Really Matters’ e ‘Music’.

É um dos melhores exemplos da inteligência e timing de Madonna, mas não foi a primeira nem última vez que a Rainha-Mãe da indústria musical recriou a estética alheia a seu favor. David Bowie pode ter inventado o uso de alter egos, Michael Jackson encarnou como ninguém o pop-star global, Tina Turner foi a primeira cantora-dançarina forte e vigorosa, Prince misturou sexo e religião, Gloria Stefan colocou a latinidade nas paradas de sucesso, Debbie Harry criou a imagem da garota urbana super cool vestida com roupas de segunda-mão.

Mas foi Madonna quem soube se apropriar de todos esses méritos, os devolvendo ao mundo em um pacote bem-acabado. Ela se mantém como uma das artistas mais rentáveis de todos os tempos, sinônimo de mega-estrelato há mais de trinta anos.

Por isso, dizer que Madonna ‘imita’ é de um simplismo vazio. Ela se apropriou de estilos e temas com resultados variados, numa relação cíclica e única com a cultura pop, digerindo, entre muitas outras coisas, Marilyn Monroe, o submundo S&M, a cultura libertária dos nightclubs gays, a Cabala, a era de ouro de Hollywood, a música eletrônica e a estética de fotógrafos como Guy Bordin – para quem perdeu discretamente um processo de copyrights relacionado ao vídeo abaixo.

O visual é essencial, mas essa equação só fica completa com música. Assim como ela soube se cercar de fótografos e diretores de arte importantes, como Jamie King e Steven Meisel, também se fez acompanhar por produtores musicais de altíssimo quilate.

A Madonna do primeiro disco, cantando com voz empolgada e aguda, ajudou a colocar a dance music nas paradas de sucesso. Ponto para John ‘Jellybean’ Benitez, DJ da cena dance de Nova York, descendente de porto-riquenhos, namorado de Madonna na época e responsável por dar o tratamento certo à “Holiday” e “Borderline”. Jellybean, que depois foi trabalhar com gente como Whitney Houston e Michael Jackson, é o primeiro de um grande lista de parcerias musicais bem-sucedidas de Madonna.

Por exemplo: seu segundo disco, ‘Like a Virgin’, além da faixa-título tem ‘Into the Groove’, ‘Material Girl’ e a assinatura de Nile Rodgers – ex-Chic, atual objeto de desejo do Daft Punk, que trazia na bagagem a produção de Koo Koo de Debbie Harry e Let’s Dance de David Bowie. Já o seminal ‘Like a Prayer’ tem faixa em parceria com Prince e o talvez momento mais brilhante de toda a discografia de Madonna, ‘Express Yourself’.

Daí em diante ela só cresceu em prestígio e ousadia, começando pela tour do corselet pontudo e rabo-de-cavalo loiro criados por Jean Paul Galtier, condenada pelo Vaticano, que virou documentário, onde Madonna simula masturbação numa cama de cetim vermelho.

A Blonde Ambition Tour encerrou a década de 1980 com Madonna excursionando pela America, Europa e Ásia. É um prato cheio pra quem quer caçar referências culturais, com, por exemplo, um segmento inteiro inspirado no filme alemão de 1927 ‘Metropolis’. A apresentação de ‘Vogue’ tem os figurinos de lycra preta e adança coreografada dos nightclubs gays de Nova York que ela ajudou a popularizar em todo o mundo. A mesma canção rendeu um dos mais lembrados momentos da história dos VMAs, numa apresentação calcada no visual rococó-sexy de Ligações Perigosas, filme de 1988.

O fim de 1990 trouxe o primeiro clipe de Madonna que a MTV americana decidiu não mostrar (a MTV Brasil passou!). ‘Justify My Love’ tem imagens tiradas de Henry & June, filme com Maria de Medeiros e Uma Thurman, e da personagem de Charlote Rampling em ‘O Porteiro da Noite’. A música é uma parceria de Madonna com Lenny Krawitz, onde uma voz em sussurro fala, geme e respira sobre uma base downtempo. Na mesma fase, ela exalta o amor pela cultura club em ‘Fever‘ e em ‘Deeper and Deeper’ – homenageando Edie Sedgwick (dona do look maiô preto com meia-calça que Madonna reinventou em “Open Your Heart”) e os filmes de Andy Warhol.

É aí que ‘Bedtime Stories’ aparece, acertando as bases bases trip-hop de ‘Justify My Love’ e suavizando o discurso libertário sexual. Essa Madona romântica e madura lançaria ainda uma coletânea de baladas chamada ‘Something to Remember’, antes de renascer, em 1998, em versão mística, ultra-saudável, tranquila, preocupada com o planeta, politizada, escancarando questões pós-maternidade e estudando a Cabala.

Tudo isso está em ‘Ray of Light’, um dos trabalhos mais complexos e bem-acabados da sua discografia. Ela escolheu trabalhar com um desconhecido produtor inglês de musica eletrônica, William Orbit, numa parceria que duraria até o começo das gravações de MDNA. Com uma voz mais segura e poderosa, mudança relacionada tanto às aulas de canto para interpretar Evita Perón no cinema, quando às aulas de Ashtanga Yoga, Madonna canta em sânscrito, flerta com techno, drum’n’bass e ambient, escreve letras que passeiam por temas do misticismo judaico e brinca com movimentos e imagens tiradas de cerimônias orientais. Ela ficou quatro meses e meio em estúdio.

Parece cabeçudo, mas não é. Longe disso. ‘Ray of Light’, ‘Frozen’ e ‘Nothing Really Matters’ foram sucesso mundial e um bem-vindo sopro de maturidade num mundo em que, no fim dos anos 90, as rádios e MTV eram dominadas por subprodutos do já enterrado grunge ao lado de Britney Spears, Cristina Aguilera, adolescentes criadas em laboratório para ocupar o cargo de princesas pop.

Na fase entre ‘Erotica’ e ‘Ray of Light’ Madonna também trabalhou com os melhores diretores de seus videoclipes. Jonas Akerlund, do premiado ‘Ray of Light’, vinha do ‘Smack My Bitch Up’, do Prodigy. O ousado ‘Justify My Love’, assim como ‘Human Nature’, é assinado por Jean-Baptiste Mondino, colaborador de David Bowie e Jean Paul Gaultier. E Chris Cunningham, antes de criar o impressionante video de ‘Frozen’, já tinha no currículo trabalhos para gravadora Warp, de eletrônica vanguardista, trabalhando com Aphex Twin e Autechre.

O impacto da música eletrônica na sonoridade de Madonna continuou com ‘Music’, lançado em 2000. Cansada de ficar quieta, ela quis sair para dançar e voltou a se encantar com funk, disco e electro-pop. ‘Music’ é apresentada por dançarinos usando o terno branco de Tony Manero em Os Embalos de Sábado à Noite durante a tour de Confessions on a Dancefloor. Foi esse infinito poder da disco music que trouxe Madonna de volta à paradas mais uma vez, em 2005.

Apresentado como se fosse um DJ set, ‘Confessions On a Dancefloor’ enterrou a artista mística, séria e preocupada em analisar a sociedade norte-americana de ‘American Life’, disco de 2003, e trouxe de volta a paixão pela pista de dança, exemplificada pelo bem sacado uso de um sample do ABBA na ótima ‘Hung Up’. Ela reaparece ruiva, com roupas de aula de dança, boomboxes, dançarinos. Outro tema caro à Madonna, religião, também reaparece: ela canta ‘Live to Tell’ durante a Confessions Tour presa numa cruz com uma coroa de espinhos.

Com toda essa bagagem, fica difícil não achar ‘MDNA’ pouco inspirado. Reflexo dos tempos em que vivemos, de musica auto-tunada e ousadia de revista teen. Falta saber onde buscar novas idéias. É o mesmo defeito do disco anterior, ‘Hard Candy’, em que Madonna se aproximou da nata do pop norte-americano da época, como Justin Timberlake e Timbaland, com resultados medianos. Pra quem já trabalhou com Prince e cantou musica escrita pela Bjork, é pouco.

É nesse momento que ela está de novo nos enormes palcos de mais uma tour mundial, a nona em trinta anos, que passa pelo Brasil nessa semana. Ela tenta recuperar o terreno perdido para Lady Gaga nos quesitos hinos de pista de dança, figurinos criativos e atitude ousada mas, criativamente, não é sua melhor fase. Estranho é que Gaga, por sua vez, tem na Madonna jovem sua mais clara inspiração, fazendo a Madonna de hoje correr atrás da Madonna de ontem, uma coisa totalmente pop will eat itself. Sobre o embate entre as duas, vale comentar que a MDNA tour é a mais rentável do ano, com forte conotação política e shows em Israel e Moscou, enquanto Gaga acabou de fazer show no Paraguai.

Mesmo assim, nada do que Madonna está fazendo agora tem potencial para ficar para a história. Mesmo a luxuosa apresentação no Super Bowl, o auge da mídia norte-americana, foi criticada por ser parecida demais com um trecho de show de Kylie Minogue.

Tem muita coisa interessante rolando por aí que poderia despertar a atenção de Madonna, como a música original e moderna de Solange, Sia Furler, Grimes e Santigold, pra ficar em apenas quatro exemplos. Pra mim o que está faltando é um consultor musical mais esperto na vida da diva.

A hora de sair de cena só ela pode e vai decidir, mas eu arrisco o palpite de que Madonna ainda tem energia para nos surpreender. Achei que ela ia parar depois do ‘Erotica’, depois da fase ‘Evita’, depois do ‘American Life’. E ela respondeu com ‘Bedtime Story’, com ‘Ray of Light’, com ‘Hung Up’. Se ela acha que tem que continuar, quem somos nós pra dizer que não?

About gaia passarelli

Freelance writer and traveler, based in Sao Paulo, Brazil.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: