Entrevista Karina Buhr para MTV1

(original aqui)

KARINA BUHR: POLICE E ALCEU VALENÇA COM LÁPIS DE OLHO E COTURNO

Postado Gaia Passarelli // vmbkarina buhrEntrevistavmb 2012


Karina Buhr na gravação do Show na Brasa

Um dos shows do VMB 2012 é o de Karina Buhr. A baiana criada no Recife dona de sobrancelhas azuis e de um guarda-roupa incrível esteve ontem no Programa do VMB falando sobre o show que fará com presença de seus companheiros de banda, o baterista Bruno Buarque, o baixista Régis Damaceno, o tecladista André Lima, os guitarristas Edgard Scandurra e Fernando Catatau e o trompetista Guizado.

Eu sou fã desde quando o Chuck me apresentou o ‘Longe de Onde’, álbum de 2011. Achei um respiro criativo no meio de tanta coisa parecida na musica brasileira, visceral e torto. Uma das coisas mais legais de Karina é a capacidade de escancarar influências tão diversas quanto Slits e Alceu Valença.

“Sempre ouvi muito Sex Pistols e The Clash. Gosto do ritmo, da energia, do jeito de cantar, da idéia de vomitar a letra sem preocupação com afinação, de poder simplesmente falar ou gritar o que se quer dizer”, afirma. No meio das muitas coisas que ouviu na vida, Karina vai em frente e cita Luiz Gonzaga, Elba Ramalho, Rita Lee, Gil, Caetano, Secos e Molhados, Velvet, Van Halen, Pixies, Kraftwerk,The Doors, Bob Marley, Gregory Isaacs, Lee Perry e ainda (ufa!) Police, Patti Smith e Queen.

Não raro, o excesso de referências deixa o cenário congestionado. Mas ela acerta quando tem que ir direto ao ponto e na hora de citar cinco bandas/artistas que está ouvindo hoje, não demora. “As primeiras incríveis que me vieram à cabeça são PJ Harvey, Portishead, Björk, Nação Zumbi e Cidadão Instigado”, diz.

Dá pra ver como outras artistas mulheres são citadas por Karina. Mas se hoje em dia não faz mais sentido usar termos como feminismo, dá pra considerar que ela faz parte, ou está à frente, de uma turma de artistas brasileiras que abraçam uma feminilidade forte e sem pudores.

“É difícil sim ser mulher e música no Brasil. Não é uma coisa de não poder tocar. Não é que seus amigos músicos vão te tratar mal. É como se tudo estivesse na mais perfeita normalidade, mas não está. Você pode chegar e tocar seu instrumento, fazer suas músicas, mas vai ser enquadrada na categoria especial ‘mulheres'”, diz.

Meio árabe, meio punk, meio pernambucana, total estranha – fosse uma cantora europeia nova é certeza que os modernos de São Paulo iam adotar como musa. Mas Karina é, de seu jeito pouco usual, totalmente brasileira – e é isso que faz dela uma das apostas mais bacanas dos últimos tempos da MTV.

Esse lado não-mulherzinha, de olhão preto, meia-calça rasgada e coturno é bem presente no visual da cantora, principalmente nos shows. “Tem algo de pintura egípcia, algo de punk, algo da sobrancelha da Marlene Dietrich. Mas tudo isso eu percebo depois, não é calculado, é no caminho do que eu vou sentindo e pensando na hora, às vezes simplesmente passando o pincel sem pensar e vendo o que acontece”, afirma.

Foi com essas questões na cabeça que eu fiz uma entrevista com a Karina sobre ser mulher na música, sobre suas bandas preferidas, sobre visual e o show no festival dinamarquês Roskilde, em 2011. As respostas da moça foram longas – sempre uma boa surpresa quando se trata de entrevistas por email – e estão logo abaixo após o vídeo.

Além de Karina e banda, o VMB 2012 terá shows de Gal Costa, Planet Hemp, Racionais MC’s, Emicida e muito mais. Não perca: ao vivo dia 20/09 à partir das 21h!

Gaía: Queria que vc falasse um pouco sobre o que te inspira visualmente. Tem um lado visual muito claro na sua apresentação. De onde essa expressão estética vem e o quanto ela é importante pra você?

Karina Buhr: Pra mim a maquiagem e o figurino são feito óculos escuros, ou um copo de vinho, algo que leva logo pra outro lugar, fora do dia a dia, fora da sala de visita. Vem dessa vontade mesmo, de deixar num canto uma maneira de se comunicar mais padronizada, que é a do dia a dia da maioria de nós e trazer pro palco o que eu sinto num lugar mais sincero de comunicação. A inspiração é mais essa do que em pessoas ou coisas específicas.

Gosto de desenhar também e acabo fazendo no meu olho um pouco o que faço nos personagens dos meus desenhos. Tem algo de pintura egípcia, algo de punk, algo de sobrancelha da Marlene Dietrich. Mas tudo isso percebo depois, não é calculado, nem pesquisado, é no caminho do que eu vou sentindo e pensando na hora, ou simplesmente passando o pincel sem pensar e vendo o que acontece.

Pro figurino gosto de coisa que eu possa me jogar, me sujar e que não rasgue, nem impeça movimentos loucos. Tô nuns momentos brilhos e cores, mas é por agora. Também gosto muito de preto e pronto.

Eu acho que o seu disco, principalmente ‘Cara Palavra’, tem um um pé no pós-punk. Rock inglês e anos 80 fizeram parte do seu repertório de referências em algum momento? O que você ouvia na adolescência?

‘Cara Palavra’ especificamente foi toda em cima da divisão da letra. Eu cantava ela do jeito que gravei, quando ainda não tinha acompanhamento dos instrumentos. Quando fui mostrar pra Bruno e Mau (“meus” baterista e baixista, que produziram junto comigo os dois discos), falei que era um punk rock e comecei a cantar. Daí as soluções de divisão de tempo pra todos os instrumentos foram aparecendo, seguindo as pausas das letras numa divisão de tempo bem particular e fortalecida pela batera de Bruno.

Gosto muito de som velho. Som de gravação velha. Sempre ouvi muito Sex Pistols e The Clash. Gosto do ritmo, da energia, do jeito de cantar, da idéia de vomitar a letra sem preocupação com afinação, de poder simplesmente falar ou gritar o que se quer dizer. Police e Queen entram fortemente no barril do subconsciente, mas na hora de fazer as músicas ou pensar nos arranjos, vou sempre no sentido contrário de buscar referências. Claro que elas vão aparecer, mas quero que seja espontâneo, porque a idéia é criar e mostrar uma identidade minha, algo que vá nascendo de uma idéia bruta, inclusive com todos os defeitos incluídos. Acho que um grande lance da personalidade musical de cada um está muito nos defeitos.

Antes de conhecer os gringos, sempre ouvi muita música brasileira, que acostumei a ouvir em casa, onde o que tocava de gringo era só Mozart e Bethoven, através do meu avô. Ouvi muito Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Ednardo, Alceu Valença, Elba Ramalho, Rita Lee, Gil, Caetano, Chico Buarque, Secos e Molhados e Ney sozinho…

Depois foi que parti pro rock and roll gringo e enlouqueci com eles. Na adolescência me apaixonei por Velvet, Van Halen, Pixies, Kraftwerk,The Doors, Bob Marley, Gregory Isaacs, Lee Perry… tudo mais ou menos ao mesmo tempo. Uma constante na minha vida é conhecer bandas através de amigos, depois de todo mundo. Até hoje é assim, sou a última a saber, daí me apaixono e só falo no mesmo assunto, séculos depois da banda sair da moda. Foi assim com Breeders, Chromeo, Devo, até com Amy, com Portishead. Mesmo Patti Smith e David Bowie vim conhecer e amar depois de ler as biografias.

Em 2011 você tocou em um festivalzão na Dinamarca. O que te marcou mais nessa experiência?

Pois é, foi no Roskilde, um festival que eu conhecia de lenda, principalmente com Bruno Buarque [baterista da banda da cantora Céu] falando maravilhas. Ele já tinha tocado lá voltou deslumbrado. Na chegada foram muitos os sustos, todos incríveis.

Tem a coisa de cantar sabendo que ninguém está entendendo a letra. Isso me incomoda e deixa o show talvez mais desesperado, um esforço talvez pro corpo conseguir passar a ideia, não soar como qualquer coisa, mas deixar um pouco da poesia que houver nas letras, pairando no ar.

A estrutura do Roskilde é uma coisa emocionante de ver. Fora o line-up monstro com direito a Portishead, Iron Maiden, Pj Harvey, Janelle Monae.

O mais massa pra mim foi ver como eles são incríveis no quesito liberdade e rock’n’roll. E como tudo funciona bem entre quem trabalha na parada, sem os resquícios de escravidão, como é por aqui. Aqui o motorista da van às vezes leva um susto quando você aperta a mão e dá um bom dia, porque o cara é acostumado a ser invisível. Lá tem isso de todo mundo se tratar de igual pra igual, que é bem emocionante de ver.

Uma coisa massa por lá: voluntários do festival distribuem água de graça pro público, o tempo todo. Não se compra água. O festival já sabe que todo mundo vai beber álcool e pular muito, por muitas horas e muitos dias seguidos, sabe que muitos vão tomar otras cositas mais. E em vez de investir numa polícia agressiva, eles espalham cartazes com um monte de dicas de “sobrevivência” e distribuem água pra todo mundo. Assim todo mundo fica hidratado e não passa mal.

Nos três dias de festival que acompanhei vi uma vez uma maca passando com uma galega gigante desacordada. Aqui em qualquer festival toda hora passa um adolescente em coma alcoólico. E todo mundo fingindo que tá tudo bem.

Outra coisa que chamou a atenção foi a limpeza visual. Nada de espaço enlouquecidamente preenchido por propaganda de cerveja. Tudo bem lindo e limpo pelo caminho, afinal é um festival de música, é diversão, todo mundo já pagou pra entrar, não precisa ser empanturrado de propaganda.

Outra coisa ainda é que o que aqui se chama de área VIP, nos shows, lá é por ordem de chegada! Uma placa bonita com o nome da banda, um sinal de trânsito estiloso e um guarda com sinalizador pra avisar quando as porteiras se abrem. Quem é mais alucinado pela banda chega antes, espera um bom tempo e assiste do melhor lugar. Sem essa de pulseirinha pra primeira fila. Nem quem toca no festival tem regalia de lugar pra assistir. Perfeição.

Outra é que a passagem de som das bandas mais conhecidas tem a mesma duração dos menos bombados. Na verdade, dependendo do horário e do palco um desconhecido pode ter mais tempo de passagem do que uma banda histórica. Por exemplo eu, tive mais tempo de passagem de som que Iron Maiden rs. E a gata do Portishead passou o show todo pedindo mais retorno.

Ainda é difícil ser mulher e música no Brasil? A a sociedade, especialmente brasileira, ainda é muito machista? Há mais machismo no Nordeste ou no Sudeste?

Será que algum homem já ouviu numa entrevista uma pergunta como “você faz suas músicas sozinho ou conta com a ajuda de alguém?” É uma pergunta que de vez em quando ouço. Ví Pitty uma vez dar um pití quando perguntaram isso pra ela.

É difícil sim ser mulher e música no Brasil. Não é uma coisa de “você não pode tocar”. Não é que seus amigos músicos vão te tratar mal. É como se tudo estivesse na mais perfeita normalidade, mas não está. Você pode chegar e tocar seu instrumento, fazer suas músicas, mas vai ralar muito mais pra provar coisas e vai eternamente ser enquadrada na categoria especial “mulheres”.

Sim, porque os compositores, os gênios, os grandes ídolos são sempre homens e pronto. Mulher ainda é tratada como musa. Nos esportes também é assim. Wanderlea era chamada de “Ternurinha”, só que ela é totalmente rock and roll, forte pra caralho, uma “tremendona”, como ela mesma diz. Mulher é uma modalidade extra, saca? Letras escritas por mulheres, por exemplo, são consideradas, de uma maneira geral, letras boas ou ruins “entre as mulheres”.

Ainda no ramo das cantoras, tem uma coisa de endeusar as mulheres, mas é uma cilada. Sempre rola uma comparação doentia de uma com a outra, uma vibe picuinha do inferno, tipo “fulana, se ligue, que agora tem sicrana!”, como se todas competissem entre si, enquanto os homens, esses sim, fazem música, criam coisas e tem cada um seu espaço.

Nas poucas lojas de disco que ainda existem, pode reparar, as mulheres estão todas agrupadas, independentemente do estilo musical! É uma loucura! Tem o setor “cantoras” e ele contém todo mundo que tem priquito, seja lá o que toque. No mesmo balaio estou eu, Gal Costa, Juliana Kehl, Maria Rita, Lurdez da Luz, Maria Alcina, Fernanda Abreu, Ângela Maria, Paula Fernandes e Maria Bethânia.

Já os homens estão devidamente separados por estilo musical, como deve ser. Você não vai encontrar Fábio Junior junto de Otto, Kelvis Duran e Luan Santana. É cada um no seu quadrado, mas a mulherada lá entupida, sem distinção de nada, só por ser mulher mesmo. Um nojo isso.

O nordeste é mais machista sim. É foda dizer isso, mas é. As mulheres principalmente. Não que a situação aqui por Rio/Sampa seja linda, já acho uma merda aqui também, mas logo que cheguei foi uma diferença nas nuances que senti logo de cara.

Numa homenagem a essa loucura toda fiz, no 8 de março desse ano, o Sexo Ágil, não sei se você viu [NE: nós vimos sim!]

About gaia passarelli

Freelance writer and traveler, based in Sao Paulo, Brazil.

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